Depois de nos ter deixado a carregar mochilas pelas montanhas, a criar laços e a tentar perceber melhor o porquê da Timefall, Death Stranding está de regresso, e com tudo o que o tornou estranho, único e, para muitos, fascinante. Lançado em 2019, o primeiro jogo da Kojima Productions dividiu opiniões com a sua jogabilidade contemplativa e uma narrativa muito carregada, mas acabou por ganhar um culto de seguidores, especialmente junto dos fãs de Hideo Kojima. Agora, com Death Stranding 2: On the Beach, é-nos prometido ir ainda mais longe neste mundo pós-apocalítico tão marcado por bebés dentro de cápsulas, fantasmas invisíveis e caminhadas intermináveis com caixas às costas.
Cinco anos depois, Sam regressa, mas o mundo à sua volta parece ainda mais desconcertante, e, claro, mais Kojima do que nunca. Esta sequela não é apenas uma continuação direta da história, mas também uma expansão do que o primeiro jogo tentou fazer: ligar as pessoas num mundo destruído. Se o primeiro título era sobre a reconstrução lenta da América, este é mais sobre os conflitos que aparecem quando essas ligações começam a enfraquecer.
A mente de Kojima por detrás da obra
Falar de Death Stranding 2 sem mencionar a mente por detrás dele é impossível. Hideo Kojima continua a ser uma imagem única na indústria, alguém que trata os videojogos como um meio artístico e pessoal, sem medo de correr riscos narrativos ou de jogabilidade. Podemos gostar ou não das suas ideias, mas é difícil recusar que há uma visão rara por detrás destes projectos. E é essa visão que, mais uma vez, dá origem a algo que não pode ser confundido com mais nada no mercado.
Neste novo trabalho do visionário japonês, a sua marca é inconfundível. Death Stranding 2: On the Beach é claramente uma continuação do primeiro jogo, mas vai para além da mera repetição, é uma evolução alimentada pela experiência acumulada ao longo da extensa carreira de Kojima. A base está lá, com a mesma aproximação cinematográfica que sempre definiu os seus projectos, mas agora com uma gama mais rica de elementos que preenchem algumas das lacunas apontadas no título original. Há uma sensação de que Kojima ouviu, ainda que subtilmente, certas críticas, e decidiu trazer ideias que o consagraram, recuperando ecos de projectos como Metal Gear Solid para dar mais robustez ao que aqui construiu.
Ambiente e imersão audiovisual
Death Stranding 2: On the Beach impressiona desde o início. A Kojima Productions enche o ecrã com detalhes visuais sublimes, do tipo que chama a atenção à primeira vista. A apresentação é extraordinária, a direção artística mantém aquele tom inconfundível e a sensação de imersão é imediata e natural. É uma apoteose de sensações audiovisuais que nos transporta para as dúvidas entre o real e o videojogável.
Reintrodução ao ritmo e à atmosfera do jogo
A primeira parte funciona como uma espécie de aula prática silenciosa, uma lição cuidadosamente coreografada que nos ensina como tudo funciona, mesmo para quem já passou dezenas de horas no primeiro jogo. Não é apenas um simples tutorial: é uma lenta reintrodução ao ritmo deste universo, onde cada passo tem peso, e cada rocha ou deslize obriga-te a respeitar o terreno mais uma vez. Quando nos aproximamos do primeiro grande objetivo, a sensação é que estamos de novo a sintonizar-nos com o mundo, não apenas com os controlos.
É uma longa caminhada, sim, mas uma caminhada agradável. A paisagem continua a ser de cortar a respiração, agora com ainda mais detalhe, mais vida, e a música, aquela mistura de ambiente e melancolia, consegue trazer à tona uma introspeção profunda, aquele tipo de ligação emocional rara que poucos jogos conseguem criar. E é precisamente aqui, neste início contemplativo, que tudo começa de novo. Estamos de volta ao estranho, isolado e fascinante mundo de Death Stranding, onde até a solidão tem um eco reconfortante.
Death Stranding 2: On The Beach - State of Play Announce Trailer | PS5 Games Ver no YoutubeNarrativa: Fragilidades e desenvolvimento contínuo
Ainda assim, nem tudo brilha da mesma forma: a história, desta vez, parece mais desarticulada, menos misteriosa e com um impacto emocional inicial mais contido do que no primeiro jogo. Há menos daquela névoa narrativa que nos fazia teorizar sobre tudo. Mas, com o passar do tempo, a narrativa ganha terreno, lentamente, e acabamos por nos afeiçoar aos temas fortes da amizade, perda e confiança.
A história de Sam é retomada cerca de onze meses após o final do primeiro jogo, agora envolvido numa missão para expandir o universo para além da União das Cidades Americanas. Em vez de reconstruir uma América em ruínas, Death Stranding 2 leva-nos até à Austrália, um território instável e brutal, onde a natureza se impõe de forma quase hostil. Terramotos, tempestades de areia, incêndios florestais e outras ameaças ambientais obrigam a uma adaptação a cada passagem, tornando o terreno mais imprevisível e exigente. A presença dos EPs continua a ser uma ameaça constante, mas agora com novos inimigos.
Jogabilidade: Expansão da acessibilidade
Nota-se uma evolução evidente na jogabilidade. Há mais ferramentas, armas, veículos (muito mais úteis e ágeis), e a introdução de habilidades sob a forma de APAS Enhancements, que dão benefícios tecnológicos capazes de reduzir o esforço das viagens. A chuva já não é apenas um cenário: escorregamos, somos surpreendidos por terramotos que alteram o terreno, avalanches de neve, tempestades de areia... tudo influencia o percurso. Agora até temos uma nave que serve de centro de operações, é uma excelente novidade, traz liberdade, utilidade e está perfeitamente integrada na narrativa. Os quartos também foram melhorados: mais funcionais, mais rápidos de utilizar e até podemos decorá-los com fotografias. Pequenos toques que nos fazem sentir mais em casa naquele mundo inóspito.
Como seria de esperar, foram introduzidas novas mecânicas, seja através de estruturas, armas ou meios de transporte, e melhoradas as já existentes, tudo com o objetivo de aperfeiçoar a forma como nos deslocamos no mundo de Death Stranding 2. Agora, tudo é menos doloroso: a progressão é mais rápida, a deslocação é menos cansativa, o que elimina uma das críticas mais frequentes ao primeiro jogo. Esta lentidão foi agora significativamente atenuada graças a uma reestruturação geral das formas como nos deslocamos.
Embora se mantenha fiel à exploração e à construção de ligações, a jogabilidade sofre alterações inteligentes. Podemos optar por métodos mais diretos, com uma enorme variedade de armas, como lança-granadas, metralhadoras e armas mais refinadas, ou seguir um caminho mais furtivo, usando hologramas e movimentos silenciosos. Estas novas formas de jogar dão mais liberdade ao jogador e rompem com a monotonia que poderia existir no primeiro jogo.
Death Stranding 2: On the Beach - The Story So Far | PS5 Games Ver no YoutubeMundo dinâmico e ligação social
O sistema de ligação social, o SSC, continua muito presente, permitindo colaborações assíncronas, onde as acções de um jogador têm impacto no universo dos outros. O mundo é contínuo e variado, com diferentes ambientes ligados entre si, e o ciclo do dia e da noite, combinado com a “chuva do tempo”, obriga a um permanente planeamento. Aqui, o terreno é quase uma personalidade por si só, moldado por forças naturais que exigem respeito e estratégia.
Ritmo e evolução do combate
Há aqui muita continuidade em relação ao primeiro jogo, o que, sendo uma sequela direta, era mais do que esperado. Por isso, esta semelhança acaba por tornar a parte inicial um pouco aborrecida. Durante as primeiras horas, sente-se que se está a jogar uma versão ligeiramente refinada do original, sem grandes surpresas ou mudanças de fundo. Temos de ser pacientes até que o jogo revele a sua verdadeira evolução. E quando o faz, fica bem claro que Death Stranding 2 não está aqui para revolucionar o mundo anteriormente criado, mas sim para o tornar mais jogável, mais dinâmico e com maior capacidade de resposta.
O foco no combate é agora mais notório, com uma maior variedade de armas, melhorias significativas na movimentação durante os combates e, acima de tudo, a introdução de novos tipos de inimigos, como os soldados mecha, que alteram completamente o ritmo das interações. É aqui que se sente o ponto de viragem: não uma transformação radical, mas um claro amadurecimento de um sistema que sabe agora quando deixar o jogador contemplar e quando o pôr realmente à prova.
Recompensa tardia, introspeção e atmosfera emocional
A base de tudo continua a ser a entrega de mercadorias e, embora se entenda que este é o coração do jogo, há uma certa falta de novidade a surpreender-nos, ao contrário do que aconteceu em 2019. É um jogo que parece pedir tempo, só ao fim de muitas horas é que realmente sentimos aquele “chamamento” para continuar. Aí, sim, começam a aparecer as surpresas, as ferramentas peculiares, as histórias escondidas e a vontade de explorar mais e mais.
A estrutura mantém-se fiel à ideia original, mas nota-se nitidamente um ajuste cuidadoso da fórmula. Continuamos a viver num sistema baseado em entregas, longas travessias e ligações humanas, mas tudo está mais polido, mais fluido e, acima de tudo, mais consciente das críticas ao primeiro jogo. Há um esforço óbvio para minimizar os elementos mais repetitivos e tornar o fluxo do jogo mais agradável, com uma ligeira inclinação para a ação. Mas nunca leva este aspeto mais dinâmico ao extremo; o cariz contemplativo e solitário da série continua bem presente.
A experiência continua a ser, no seu núcleo, uma viagem profundamente introspectiva, onde cada movimento, cada obstáculo e cada personagem contribuem para um sentimento de ligação emocional. Não é um jogo que nos atira constantemente para o conflito, é sobretudo um convite para sentir, refletir e compreender um mundo estranho, mas muito familiar. E é precisamente neste equilíbrio entre a introspeção e o rigor técnico que reside grande parte da força desta sequela.
DEATH STRANDING 2: ON THE BEACH - Game Premiere - Orpheum Theatre - June 8, 2025 Ver no YoutubeExtravagâncias de Kojima
Há um charme inegável que remete para o legado de Metal Gear Solid, Kojima não conseguiu, ou não quis, fugir à sua veia mais autoral. As extravagâncias continuam lá, com elementos que misturam videojogos, cinema e até um certo teatro surrealista japonês. Algumas destas ideias funcionam muito bem, outras nem por isso. Há também um serviço social mais pronunciado, uma ligação mais forte entre os jogadores e as personagens, e o progresso é menos consumidor de tempo, uma vez que se obtêm gadgets mais rapidamente e há incentivos óbvios para melhorar as nossas ferramentas, distribuindo-as pelos locais certos.
Excelência técnica e detalhe visual
Visualmente, Death Stranding 2: On the Beach é um verdadeiro desabrochar gráfico, um dos exemplos mais impressionantes do que a atual geração de consolas é capaz de apresentar. Na PlayStation 5, é sem dúvida o jogo mais impressionante que experimentei até agora. A qualidade visual é tão elevada que, por momentos, somos levados a questionar se o que estamos a ver é realmente gerado por um motor gráfico, pois há cenários em que tudo parece incrivelmente real, desde a textura da roupa molhada à iluminação difusa de uma paisagem varrida pela chuva e pelo vento. É um nível de detalhe espantoso. As personagens estão cheias de vida, os cenários têm uma densidade e complexidade impressionantes, os veículos parecem saídos de um filme de ficção científica de alta produção e até os objectos mais banais têm um nível de cuidado visual que raramente se vê. É aqui que se pode ver claramente o trabalho quase obsessivo da Kojima Productions, que mais uma vez apresentou um espetáculo técnico impecável. Cada fotograma é cuidadosamente composto, e o resultado é um mundo que não só impressiona, como também nos agarra com a sua credibilidade e beleza.
Escolhas técnicas questionáveis
Mas há escolhas técnicas que são difíceis de compreender, especialmente numa produção deste calibre. Death Stranding 2: On the Beach oferece dois modos gráficos principais: um de qualidade visual, que privilegia o detalhe e a resolução mas está fixo nos 30 fps, e outro de desempenho, que permite chegar aos 120 fps, mas com uma pequena perda na nitidez da imagem. Se tiveres uma TV 120Hz com a opção ativa no menu da consola, o jogo coloca automaticamente o modo desempenho a 120fps, por isso tens de a desligar manualmente na opção se quiseres jogar a 60fps. É uma decisão questionavel da Kojima Productions que poderá confundir os jogadores.
Death Stranding 2: On The Beach - Explore. Connect. Survive. | PS5 Games Ver no YoutubeBosses: Oportunidade desperdiçada
Não podia deixar de dedicar dois parágrafos a um dos aspectos que mais me desiludiu em Death Stranding 2: On the Beach: os encontros com bosses. Ao longo de toda a jornada, senti uma visível falta de impacto nestes momentos, que tradicionalmente servem como pontos altos de stress, emoção e espetáculo. Aqui, estas batalhas revelam-se competentes do ponto de vista técnico, mas carecem de grandeza e envolvimento. Mesmo na reta final, onde é de esperar um crescendo emocional e técnico mais intenso, o jogo opta por soluções um pouco sem sabor, por vezes até demasiado limitadas. Não digo que sejam um total fracasso, pois funcionam, cumprem a sua função, mas falta-lhes aquele fator de impacto, aquela sequência que fica na nossa memória.
Durante as 42 horas que me levaram até aos créditos finais, a jogar na dificuldade normal, só morri uma vez. Isto evidencia o baixo nível de desafio, que acredito ser uma decisão consciente de Hideo Kojima em dar prioridade à fluidez narrativa e ao envolvimento emocional em detrimento da criação de obstáculos frustrantes. É uma atitude legítima, que até faz sentido dentro da identidade mais contemplativa da série. Mas, para mim, faltou intensidade, faltou aquela sensação de estar realmente a ser testado.
Conclusão e legado
Death Stranding 2: On the Beach é, acima de tudo, uma reafirmação da visão única de Hideo Kojima. Não é um jogo feito para todos, nem pretende sê-lo. É uma experiência cuidadosamente esculpida, onde a contemplação e a construção de significado têm mais peso do que a recompensa imediata. Nesta sequela, há um nítido amadurecimento da fórmula original, com melhorias importantes na jogabilidade e uma maior preocupação com a relação com o jogador, sem comprometer o carácter introspetivo e misterioso que tornou o original tão polémico quanto impressionante.
Apesar de algumas fragilidades na estrutura narrativa inicial, bosses pouco memoráveis e escolhas técnicas questionáveis, On the Beach é uma evolução coerente, refinada e artisticamente ambiciosa. Não revoluciona o universo que lhe deu origem, mas expande-o com sabedoria e sensibilidade, reforçando o seu lugar como uma das obras mais originais e distintas da indústria. Para quem estiver disposto a reentrar neste mundo estranho, poético e cheio de silêncios pesados, a viagem, tal como no original, vale a pena não pelo destino, mas por tudo o que é sentido pelo caminho.
Prós:Contras:- Direção artística e visual excecional
- Atmosfera imersiva e introspectiva
- Melhorias na jogabilidade, movimento, combate e ritmo sem perder a identidade do original
- Mundo mais dinâmico e imprevisível
- Sistema social persistente
- Fidelidade à visão autoral de Hideo Kojima
- Narrativa inicial desarticulada
- Bosses pouco memoráveis
- Um ritmo lento e sem surpresas no arranque
- Baixo nível de desafio
- Falta de inovação no sistema de entregas









