Comecei a jogar na década de 1980, quando tudo era ainda muito rudimentar, mas cheio de entusiasmo. As consolas eram simples, os computadores eram lentos e as salas de jogos eram o meu refúgio, o local onde descobria novos mundos. Não havia tutoriais, nem vídeos a explicar os passos. Havia apenas o jogo, o comando ou o teclado, e a necessidade de aprenderes sozinho, muitas vezes cometendo centenas de erros até perceberes. Muitos jogos não te diziam exatamente o que queriam de ti, era um convite silencioso para descobrires os segredos e as regras escondidas por ti mesmo. E foi isso que me marcou: não se tratava apenas de ganhar, mas de perceber como tudo funcionava, decifrar o que não estava escrito, dominar um universo invisível que hoje parece impossível ou mesmo injusto, mas que na altura tinha algo de mágico.

Jogar era aprender a observar

Nos anos 80 e início dos anos 90, jogar era uma espécie de descoberta constante. Cada inimigo tinha padrões que só podiam ser compreendidos com atenção, cada obstáculo exigia timing e cada nível escondia segredos que só podiam ser descobertos com paciência e memória. Passava horas a morrer e a tentar de novo, até que finalmente tudo fazia sentido. Jogar era como desvendar um pequeno mistério: testar, observar, aprender. A dificuldade não estava lá para me deixar frustrado, estava lá para me ensinar a insistir, a compreender as regras invisíveis e a dominar o que parecia impossível.

Hoje, os jogos guiam-nos, explicam-se a si próprios, mostram-nos o caminho. É bom que mais pessoas possam jogar sem barreiras, mas sinto falta da sensação de descobrir algo por mim próprio, do orgulho tranquilo de descobrir cada segredo sozinho. Antes, ganhar significava mais do que ultrapassar uma fase, significava ter observado, tentado, falhado e aprendido. Agora a conquista é imediata, mas não traz o mesmo orgulho de quando cada conquista era fruto de esforço e descoberta.

A mudança do desafio para a progressão

Para mim, durante muitos anos, o que fazia um jogo valer a pena era o desafio. Terminar um jogo era uma vitória pessoal, o resultado de esforço e persistência, não de conquistas desbloqueadas ou habilidades acumuladas. Lembro-me de jogar Mega Man ou Castlevania: sem dicas, sem checkpoints fáceis, cada nível era um teste à paciência, à memória e à destreza. Hoje, sinto que tudo mudou. Os jogos modernos dão-nos constantemente feedback positivo, recompensas e progressão, mesmo quando falhamos.

Não acho que isso seja necessariamente uma coisa má, é apenas diferente. Talvez seja o reflexo da evolução da indústria e do público: há mais jogos, mais pessoas a jogá-los e menos tempo para nos dedicarmos a cada experiência. Mas isto mudou a forma como encaro o triunfo. Antes, era um triunfo difícil; agora, é uma progressão constante, uma consistência. E para mim isto transformou a relação que tenho com os jogos: já não se trata apenas de ultrapassar obstáculos, mas de gerir experiências e desfrutar de cada pequena recompensa que me dão.

Nós também mudámos

A forma como jogo mudou tanto como os próprios videojogos. Lembro-me de quando cada lançamento era um pequeno evento na minha vida: comprar um jogo com o dinheiro que tinha guardado ou trocar cassetes com amigos significava que cada momento dentro desse jogo era precioso, vivido ao máximo. Hoje em dia, com as enormes bibliotecas digitais e os jogos disponíveis em várias plataformas, posso começar um título e pô-lo de lado quase sem pensar. É estranho, e até um pouco triste, ver como a facilidade de acesso mudou a forma como me relaciono com cada experiência.

Também sinto que mudei enquanto jogador. Agora procuro jogos que se enquadrem no meu tempo e rotina, quando antes era o jogo que ditava o meu horário. Com a idade e as responsabilidades, o tipo de desafio que me atrai mudou: o que antes exigia horas de repetição, agora posso desfrutar de forma mais ajuizada. Não é que esteja menos interessado; é que aprendi a jogar de forma a que a experiência se adapte a mim, e não o contrário.

Mas o bichinho da nostalgia está sempre presente, e em certos jogos dou por mim a pensar que a sensação de gratificação do passado é cada vez mais difícil de sentir. Às vezes parece que os jogos perderam o brilho de outrora, embora parte disso seja apenas uma perceção, influenciada pela avalanche de títulos que temos ao nosso alcance, o que nos leva a descartar parcialmente o que de bom muitos deles ainda conseguem oferecer.

O que se ganhou e o que se perdeu

Com o tempo, senti como os videojogos evoluíram, em termos de narrativa, de complexidade e de diversidade. A tecnologia abriu portas a mundos enormes, histórias aprofundadas e experiências que me fazem sentir dentro de universos tão diferentes e ricos. Hoje em dia posso encontrar jogos que me relaxam, me desafiam ou me fazem pensar, e gosto disso: há algo para todos os momentos e todos os estados de espírito.

Ao mesmo tempo, noto algumas mudanças que me deixam com saudade. Sinto que a confiança nos jogadores, na nossa curiosidade, na nossa capacidade de aprender e descobrir por nós próprios, está a diminuir. Muitos jogos tornam o caminho demasiado fácil, e isso rouba-nos a sensação mágica de exploração que eu tanto gostava nos clássicos. Não é que tudo fosse melhor antes, eu sei disso; mas vejo que cada geração de jogos é reflexo do seu tempo, do contexto tecnológico, social e cultural, e isso molda não só o que jogamos, mas também a forma como nos relacionamos com esses mundos.

O que fica

Quando penso nos videojogos, vejo também a minha própria história. Lembro-me daquele miúdo que passava horas a explorar todos os pormenores, curioso, paciente, sem se preocupar com o tempo ou com o mundo à sua volta. Cada desafio era uma descoberta, cada erro uma lição, e cada vitória trazia aquela sensação de realização que parecia maior do que qualquer outra coisa. Hoje jogo de forma diferente: Escolho com cuidado, sei o que realmente me interessa e valorizo os momentos que passo dentro de um mundo virtual. Mas mesmo com esta seletividade, encontro nos jogos a mesma magia de sempre, aquela capacidade de me surpreender, de me perder em histórias e mundos que de alguma forma acabam por espelhar partes de mim.

Mesmo depois de todos estes anos, o que me fascina é como o desejo de aprender, explorar e descobrir permanece o mesmo. Cada jogo traz-me algo diferente: um desafio, uma emoção, uma memória, e lembra-me que, mais do que jogar, estou a crescer e a conhecer-me melhor. É esta ligação que torna os videojogos tão pessoais para mim: não são apenas entretenimento, são momentos que me ajudam a evoluir dentro e fora do ecrã. É uma vida lado a lado com este mundo, que começou há mais de 40 anos com um simples ZX Spectrum.